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O Selo que Ainda Respondia

A tinta da carta ainda estava fresca quando Selene interrompeu a assinatura. Sobre a mesa, a chama de uma vela se inclinou para o chão. Não havia vento.

Crônicas de Eldora · Os Selos do Reino

A tinta da carta ainda estava fresca quando Selene interrompeu a assinatura. Sobre a mesa, a chama de uma vela se inclinou para o chão. Não havia vento.

A arquimaga pousou a pena. Por um instante, ouviu-se apenas o ruído distante da capital: rodas sobre pedra, vendedores na praça, o martelo de uma oficina. Então veio uma batida sob os pés. A chama se endireitou.

— Isso aconteceu ontem? — perguntou Selene. O aventureiro não soube responder.

Ela se ajoelhou junto à parede e afastou um tapete. Havia uma inscrição no piso, quase apagada por sucessivas reformas. Um dos traços emitia uma luz azul tão fraca que parecia refletida de algum lugar. Selene encostou dois dedos na pedra. A luz desapareceu.

— Leve a carta ao capitão Varek. Diga que preciso do registro da caravana que você ajudou a socorrer. — A emboscada? — Principalmente o que estava sendo transportado.

Varek encontrou o registro entre relatórios de feridos e pedidos de reforço. Madeira. Mantimentos. Ferramentas. Na última linha, outro escrivão havia acrescentado uma carga: pedras retiradas da Pedreira de Granito, destinadas ao reparo de uma passagem na capital.

— Perdemos parte da carga perto da floresta. Achei que não valesse arriscar homens para recuperar entulho.

O capitão arrancou uma folha do caderno e marcou o trecho da estrada. — Se encontrar alguém que ficou para trás, traga essa pessoa primeiro. As pedras podem esperar.

Na margem da estrada, o aventureiro encontrou uma roda partida e sulcos cobertos por folhas. Mais adiante, sob as raízes de uma árvore, repousava um bloco de pedra do tamanho de um escudo.

Não era minério. Uma das faces havia sido trabalhada. Linhas rasas formavam parte de um desenho maior, interrompido pelas bordas quebradas.

Quando o aventureiro se aproximou, sentiu na mão a mesma pressão que antecedia sua habilidade recém-desperta. O grimório reagiu. Nenhuma página revelou uma resposta pronta. Apenas um traço surgiu na margem, reproduzindo uma das marcas da pedra.

O bloco vibrou uma vez. De dentro da floresta, outra vibração respondeu.

Thorek examinou a peça em sua oficina. Passou o polegar sobre a superfície, aproximou uma lamparina e ficou em silêncio por tempo suficiente para que o aventureiro percebesse a mudança em seu rosto.

— Isto foi cortado recentemente — disse ele. — Mas estes encaixes são mais antigos que qualquer muralha que eu tenha reparado.

Virou o bloco. No lado oculto havia uma cavidade estreita, preenchida por resíduos de cristal. — Não era uma pedra de construção. Fazia parte de um mecanismo.

Selene chegou antes que ele terminasse o exame. Ao ver a inscrição reproduzida no grimório, pediu que fechassem a oficina.

Explicou que certas construções antigas conduziam mana através de pedra, metal e cristal. Os selos dependiam dessas ligações. Uma peça arrancada podia continuar recebendo energia, embora já não conseguisse cumprir sua função.

— Podemos recolocá-la? — perguntou o aventureiro. — Se encontrarmos de onde saiu — respondeu Thorek.

Selene observava a porta. Do outro lado, os ruídos da cidade continuavam. Mas, entre duas marteladas, veio uma batida funda. A pedra sobre a bancada respondeu. Dessa vez, todos ouviram.

Naquela tarde, Varek recebeu um novo pedido de escolta. Thorek seguiria até a pedreira para identificar a estrutura danificada. Selene permaneceria na capital, procurando outras inscrições sob as construções mais recentes. O aventureiro levaria o fragmento.

Antes da partida, a arquimaga lhe devolveu a carta de recomendação. — Você conquistou o direito de ser ouvido pelas guildas. Agora vamos precisar que elas escutem umas às outras.

Na estrada, o fragmento permaneceu imóvel dentro da caixa. Só voltou a vibrar quando os primeiros paredões da pedreira surgiram no horizonte. Havia luz entre as rachaduras. E alguém já estava trabalhando lá embaixo.